Visitas da Dy

sábado, 10 de setembro de 2011

Erros da madrugada ou Fez-se a Confusão

Uma da manhã e lá fui eu em busca de desabafar as agonias do dia com alguém que me entendesse… escrevi um texto pra postar no blog, meu eterno diário público (?) e fiz um mail pra uma amiga. Desses que tem endereço certo, mas foi pro endereço errado.
Fez-se a confusão.
Tenho explicações lógicas para justificar o erro no envio, mas o fato é que não adiantariam e, como diz Quintana, não devemos nos prender a explicações. O que está feito, está feito e ponto e vírgula, porque não gosto de ponto final.
Descobri meu engano de uma das formas mais constrangedoras possíveis, na verdade porque me envergonho sempre que alguém fala dos meus textos, mas mais ainda porque era uma confissão. Longe de ser secreta, mas uma confissão de agonias, de aflições.
Tratava-se sobretudo de um dos arranhões que ganho ao longo da caminhada da vida. Ou mais, tratava-se de uma abertura na cota de malha metálica com a qual tenho revestido meu coração, uma brecha que permite ver  que eu tenho o coração vermelho.
Descobrir que as minhas confissões  tinham se desvelado a olhos “errados” me fez ficar mais envergonhada, mais tímida, com uma vontade enorme de me esconder num pacote de papel e só deixar dois buraquinhos para os olhos…
Não havia nada demais lá.
Só dizia que estava triste. E comentava minhas saudades.
Mas é ruim quando alguém sabe das saudades que a gente tem, das dores que a gente sente assim, meio que sem ser convidado. É meio que se despir ao desconhecido. É expor o coração a olhos curiosos dos quais não se sabe o que virá a ser dito.
Fiquei assim: adolescente que fugiu de casa, flor sem perfume, cortina sem janela, exposta sem querer me expor.
A parte boa foi que ganhei um elogio, quem leu meu texto, gostou. Mas nunca sei o que fazer com os elogios: não sei se os deixo no bolso e corro o risco deles se amassarem, se os deixo numa gaveta trancados e os perco no tempo ou se só os recebo com carinho e devolvo um sorriso… muito difícil isso de alguém gostar do que a gente escreve, ainda mais quando se escreve só o que se pensa, só o modo como se vê o mundo, sem maiores pretenções.
Uma coisa engraçada foi que entre os breves comentários que tecemos sobre o acontecido, o destinatário – errado – do meu mail disse que eu não escrevia desse jeito pra ele.
A questão é: e eu deveria? Acho que ainda não. Acho que isso depende de como as teias da vida são conduzidas. Já escrevi pra amigos de 20 anos, já escrevi pro meu filho, já escrevi pra uma amiga cuja amizade tinha meses, mas que de tão intensa parecia anos.  
Não é que nunca tenha pegado na caneta inspirada por uma ou outra coisa que o tal destinatário tenha me dito ou feito. Isso já aconteceu e é bem  verdade que lá no fundo eu só acho que não é a hora de mostrar os dois ou três textos que fiz tendo-o em pensamento, ou talvez essa hora não vai chegar, ou não sei se será bom apontar em qual ele está sendo a inspiração.
Não acho que seja muito bom explicitar essas questões. Pode ser que ao escrevermos acabemos por desmanchar as expectativas alheias. Quando se promete algo ou se prepara algo pra alguém, o outro sempre espera que seja bom, como não é o caso, como os textos são sempre simplórios e meio confessionais, não vale a pena.
Algumas revelações devem ser evitadas só pra manter o encantamento, como um segredo que não se conta – porque se é compartilhado não é mais segredo, é confissão, como as que fiz, como a que faço e as que vou fazer.
Outra questão que nunca me abandona e que vem acompanha de uma série de outra perguntas é: por que escreveria? Teria alguma importância isso? Seria relevante? A resposta para essas questões se dá através de outra pergunta: porque a necessidade de deixar à vista algo que está tão bem guardado?
Não vejo o motivo pelo qual abrir meu mundo e mostra-lo aos outros seria bom. Serviria apena pra que apontassem e dissessem o quanto fujo dos padrões… ah, padrões… como fujo deles, e como caio neles!
Parece-me que quanto mais tento me desvencilhar desses regramentos sociais mais me prendo em suas teias. Quanto mais livre, mais desprendida, mais percebo que no fundo o que há é uma rebeldia limitada, permitida até certo ponto, como todo o resto de nossas vidas. Como todos os nossos comportamentos e ações e sentimentos.
O que é ser livre? O que é fazer o que se deseja? É ir até onde não ultrapasse os limites do outro. Que beleza de liberdade! Limitada! Convecionada! Quer dizer que só posso querer o que me é direcionado?! Muito bonito isso! Muito livre mesmo.
Parabéns pra nós, pobres mortais, que nos julgamos livres e democráticos, mas que nos sujeitamos a nós mesmos. Que deixamos por muito tempo a alma como prisioneira do corpo e que agora fazemos o contrário: prendemos nosso corpo à alma, que somos livres para fazer qualquer coisa, mas que nos mortificamos depois, pelo que os outros vão falar e pensar sobre nós e pior, pelo que nós vamos pensar de nós! Pelo fato de como vamos lidar com a tal da nossa consciência, nossa algema eterna.
Parabéns pra mim, que tão moderninha, ainda me prendo pensando em “questões filosóficas” de certo e errado quando já devia ter desistido de entender esse mundo. E aqui me coloco como moderninha mesmo. Não, não quis dizer contemporânea, o que é bem diferente. Sou moderninha: leio clássicos renascentistas, inspiro-me em Maquiavel, ouço músicas do século XVI, então é isso mesmo, sou moça moderninha, talvez com um corte de cabelos contemporâneo: estilo sem corte!
Enfim, essa noite só peguei na caneta pra dizer que passados os meus 15 minutos de vergonha pelo elogio que ganhei pelo texto, preciso devolver um sorriso e fazer uma confissão, já que vai deixar de ser segredo: sim, tenho pelo menos um texto que seria dedicado ao senhor destinatário errado, mas está manuscrito num caderninho e não será digitado e nem postado tão cedo e quando  o for, claro, não será apontado! ;-)

Um bom fim de semana pra quem passar por aqui!
                                                                                  Beijocas,
                                                                                                     Dy.

“(…) hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
(Fragmento de Soneto da Fidelidade – Vinícius de Morais)


0 Comentários:

Postar um comentário