Visitas da Dy

sábado, 30 de julho de 2011

O Caderno



Meu caderninho de anotações acabou. Pouquíssimas vezes vi um caderno meu acabar. O duende dos cadernos sempre os roubava antes que eu chegasse à última página.
O fato do caderninho ter acabado me assustaum pouco: nunca escrevi tanto em tão pouco tempo. E longe se serem anotações pertinentes aos meus cursos. Relendo as páginas todas escritas encontrei fichamentos de livros, endereços de possíveis lugares pra deixar meu currículo quando cheguei ao Rio, endereços de amigos, telefones que não sei de quem são porque nunca anoto os nomes e textos que escrevia pra aliviar o coração e que vieram parar nesse blog.
Descobri que o caderno se tornou um dos meus melhores amigos, juntinho com um lápis ou caneta ou o que estivesse por perto e desse pra escrever. Descobri que foi o meu caderninho que não me deixou enlouquecer naqueles primeiros dias nas terras cariocas, que foi ele a minha companhia nas madrugadas insones e que ele me ajudou a não explodir várias vezes.
Relendo todos os textos vi que a maioria eram escritos nas minhas noites mais tristes. Nas noites mais cheias de saudades, nas noites mais escuras e longas que já tive do alto dos meus 26 anos.
Pouca coisa foi escrita em momentos de alegrias. Agora entendo Cecília Meireles e seus poemas lindos que falam do mar, de idas, vindas, com uma melancolia que extravasa as entrelinhas e nos envolve de um maneira tão sutil. A solidão é dilacerante e inspiradora. O desespero aperta o coração e tira dele coisas que podem ser lindas, sentimentos que temos pelo mundo e que nem sempre nos damos conta disso. Sentir saudades é ter uma mão enorme que te aperta o peito de uma forma tão forte que o coração não consegue mais espaço pra bater direito e o ar começa a faltar aí você percebe que ama. Porque passa um filme dos melhores momentos da sua vida, com as melhores pessoas, as mais importantes e você nota o quanto as ama e o quanto sempre as amou e muitas vezes nunca disse isso a elas.
Não raro eu dizia aos meus amigos que os amo. Agora digo sempre. Dou um bom dia e mando logo um “eu te amo”. Se tornou mais importante dizer para quem eu amo de verdade o quanto são queridos. Se tornou fundamental mostrar pra eles o quanto fazem falta na minha vida e o quanto são presentes nas suas ausências e o quanto ainda me acompanham mesmo com a distância geográfica.
Meu caderninho acabou. Os textos ficaram nas páginas que daqui a pouco vão se perder no tempo e no espaço, mas dei um jeito de deixa-los todos à mostra, guardados nesse blog.
Comprei um caderninho novo e já tenho mais da metade das páginas escritas em poucos dias e agora estou feliz.
O que descobri com o caderno novo, relendo os textos que já estão lá é que também escrevo quando estou feliz. Os textos são bem menos confusos, bem menos melancólicos e nem me expõem tanto, mas as páginas chegaram a sorrir pra mim.
Acho que o exercício de escrever um pouco todos os dias tem me feito muito bem: é um espelho mais claro e mais nítido do que aquele que tem ali no meu banheiro e que me permite ver muito além de onde os meus olhos alcançam: entro pelos meus próprios olhos, e me vejo em essência nas entrelinhas que eu mesma escrevi…
Vou comprar outro caderninho. Vai que esse acaba rápido demais! Preciso me ler todos os dias. Preciso me encontrar!

Junho de 2011, próximo à mudança para Nikity City.

Uma homenagem aos meus caderninhos, por Chico Buarque:

O Caderno

Chico Buarque

Composição: Toquinho/Mutinho
Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco até o bê-a-bá
Em todos os desenhos
Coloridos vou estar
A casa, a montanha, duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel
Sou eu que vou ser seu colega
Seus problemas ajudar a resolver
Sofrer também nas provas bimestrais
Junto a você
Serei sempre seu confidente fiel
Se seu pranto molhar meu papel
Sou eu que vou ser seu amigo
Vou lhe dar abrigo
Se você quiser
Quando surgirem seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel
O que está escrito em mim
Comigo
ficará guardado
Se lhe dá prazer
A vida segue sempre em frente
O
que se há de fazer ?
Só peço a você um favor
Se puder
Não me esqueça num canto qualquer

2 Comentários:

Nanda disse...

minha linda,
as experiencias servem para passarmos e tirarmos proveito, e vc pelo que percebo faz muito bom uso!!!
Saiba que pode contar comigo sempre!!!
beijos da amiguinha
Nanda

Dy Eiterer disse...

Oh, nanda!
obrigada pela visita no blog, pelo comentário e por estar por perto!
preciso de pessoas assim!
beijooooooo,
dy

Postar um comentário