Visitas da Dy

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Despertar



               Agora que meus olhos se abriram pude, enfim, me ver como quem usa os seus olhos.
Enxerguei que os homens, todos, sempre se olham através de lentes, mais finas ou mais espessas, depende de cada um, de seus valores, de suas emoções, de seus momentos, mas as lentes sempre estão lá.
As lentes que lhe couberam a você para me olhar, em meu julgamento, são demasiadamente cruéis, espessas e, talvez, até desnecessárias.
Sob essa lente o que consegui foi me ver ampliada, bem focada, em close, destacando sobre tudo meus pecados, meus vícios. As virtudes que eu pensava ter sequer foram notadas. Não lhe apraziam.
Na mira desse olhar, no fim das contas o que houve foi uma diminuição do que sou, uma drástica redução que me jogou ás sombras, para escanteio, às margens de em sei bem o que.
Enquanto teus olhos buscavam luz parece que só lhe mostrei as trevas, num jogo de oposições que rompia com seus modelos tão formais, tão corretos, tão isentos da possibilidade do erro ou do imprevisto. Apresentei-me diante de você como o diferente, um novo paradigma contraditório em sua própria definição, afinal sou uma espécie de personificação do “sem modelo”, uma figura absolutamente desregrada onde tudo o que importa é a busca desmedida pela felicidade, pela realização, pelo bem estar, pelo meu bem estar.
Seus olhos buscavam Eva, a mulher perfeita, submissa, que erra e se arrepende, que caminha ao lado e q não se expressa – pelo menos não impulsivamente, é comedida – você buscava companhia muda, imutável, apática, obediente, resignada. O que encontrou foi Lilith. Paixão avassaladora que desperta todos os dias, desejo à flor da pele. Mulher que se deixa reger pela lua, de fases, espontânea, de discurso inflamado e apaixonado. Guerreira de armas afiadas, desbravadora, sempre pronta para desvendar segredos, seus próprios segredos e os dos teus olhos. Encontrou um mundo paralelo, à penumbra do mundo iluminado que costuma ver nos seus dias, do seu mundinho de lugar-comum. Encontrou uma mulher que ás vezes é temida e até rejeitada por não ser compreendida, mas que no fundo é só sentimentos, um ser inundado de sentimentos tão puros que chega a ser cristalina.
Você buscava a calmaria, eu furacão. Enquanto buscava o outono, as folas secas, a reflexão, dei-te vulcão, calor, destruição de sua monotonia.
Destruí demais. As doses foram exageradas. Overdose de exposição faz mal pra quem só sabe se esconder por traz da idéia de ser uma pessoa comum... com a destruição que causei encerrei toda e qualquer possibilidade de uma relação pacífica entre o teu sono calmo e a minha noite turbulenta, ativa.
Como Lilit saiu do Éden e foi esquecida, sai assim do foco dos teus olhos. A atriz não aplaudida. Aquela que nunca vai ser a estrela do seu céu, da mesma forma que não será mais as ondas do meu mar, que me levava pra longe, mas me trazia sempre pra perto de quem era meu porto, meu cais. Agora prefiro o caos, me cai melhor.
Encerramos aqui uma peça teatral sem graça, folhetim mal escrito, mal acabado, não acabado. É tudo só uma história não escrita, não vivida, esquecida. O que restou foi um sonho que nem pode ser roubado, afinal, nunca foi sonhado.

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