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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Chuva: de quem é a culpa?


“Chove, chove e choveu a noite inteira” esse é um trecho de um poema que me lembro ter escrito forçadamente no meu caderno de poesias da escola.

Sim, naquele tempo, na década de 1990 eu tinha um caderno de poesia! Vermelho, pequeno, de capa dura. Minha mãe ilustrava os poemas e poesias com desenhos da autoria dela. Como desenha bem.

Meu caderno de poesias era chato. A maioria das coisas escritas nele eu não gostava. Eram poeminhas longos, chatos, uns exaltando o amor à nação brasileira que eu nem entendia direito o que era. Vivia resquícios de uma ditadura militar: mesmo a ditadura tendo caído no ano em que nasci, ou no ano seguinte, quando o novo governo assumiu – o que não fez lá muita diferença, porque estamos aqui citando um famoso político corrupto brasileiro, Sr. José Sarney, que a essa altura apoiava o governo dos milicos – na minha escola ainda tínhamos a “hora cívica”, com hasteamento da bandeira, hino nacional e apresentações de poemas sobre o Brasil.

 

Aff... como era chato decorar aquilo. Alguns ainda me lembro de cor. Que maldade isso. Fazer uma criança de 7/8 anos decorar poemas que ela detestava... eu queria era saber de cor o Vinícius: “mais que amor de cachorrinha...”  - era o meu preferido dele! – e o “relógio” esse sim era legal!

Lembro de ter “conhecido” a Cecília Meirelles com “A canção dos tamanquinhos” musiquei esse por conta própria e cantava sem parar!

A Canção dos Tamanquinhos

Cecília Meireles*

Troc... troc... troc... troc...
ligeirinhos, ligeirinhos,
Troc... troc... troc... troc...
vão cantando os tamanquinhos...

Madrugada. Troc... troc
pelas portas dos vizinhos
vão batendo, troc... troc...
vão cantando os tamanquinhos...

Chove. Troc... troc... troc...
no silêncio dos caminhos
alagados, troc... troc...
vão cantando os tamanquinhos...

E até mesmo, troc... troc...
os que têm sedas e arminhos,
sonham, troc... troc... troc...
com seu par de tamanquinhos

Olhem que delicadeza de poeminha! É sonoro para os ouvidos infantis e até hoje me lembro do ritmo que dei a ele e me pego cantarolando.

 

Mas mesmo na canção dos tamanquinhos dos meus tempos de criança eu encontro a chuva. “Chove. Troc... troc... troc...”

Embora tenha dado uma volta enorme, lá no meu caderninho de poesias eu vim falar da chuva.

Adoro chuva, dormir com chuva é muito bom, banho de chuva é muito bom, barulhinho de chuva é muito bom.

Mas a chuva que tem caído nos últimos dias tem me assustado.

Depois de uns dois dias sem ter ligado a TV e acessado a internet puramente pra fazer nada – estou de férias mesmo! – e de ter dormido como um urso em plena estação de hibernação, resolvi sentar-me na sala e “sapear” com o controle na frente da do televisor.

Cadê o Bob Esponja? Acabou se mudando da fenda do biquíni e veio pra mais perto de nós é isso? Quanta água!

Procurei pelos desenhos animados, mas só tinha água.

Procurei até pelos chatíssimos programas de culinária – eu não sou dona de casa,mas era uma alternativa! – e nada.

O que há de errado com o mundo? Está tudo se acabando em água! Número absurdo de pessoas mortas, desastre atrás de desastre e pasmem, num país do tamanho do Brasil, estamos chorando os mortos pelas águas no sudeste e tem gente sem ver água no sertão nordestino há 6 meses.

As coisas não estão em seus devidos lugares. Nós não estamos em nossos devidos lugares. Pessoas moram em encostas perigosíssimas, em margens de rios, em áreas de risco. “A culpa é do governo!” essa é a frase preferida das pessoas! Hoje mesmo vi, em algum dos 357 canais que estavam transmitindo ao vivo as desgraças da chuva, que a Dilma enfrentava a primeira grande crise do SEU GOVERNO.

Espere aí um minuto! A grande crise não é única e exclusivamente dela!

Assim como também não é única e exclusivamente de São Pedro!

Vamos por partes: existe uma demanda de pessoas que precisam de moradias em locais salutares e seguros, sim, mas por outro lado, existe uma grande colaboração nossa pra que essas coisas aconteçam.

Sobre o fenômeno natural seria possível uma política de escoamento, sim! Mas pensemos: o escoamento é feito pelas bocas de lobo, bueiros, essa coisa toda, mas se eles ficam entupidos por sujeira por onde a água escoa? Hum... entendi... o lixo que você joga na rua não deixou a água escoar... agora a rua tá alaga e vai perder seu carrinho popular que comprou em 72 vexes com taxa a 0%, durante a redução do IPI, né? E a sua educação e senso coletivo, você levou ao banco e trocou pelo empréstimo pra pagar o carrinho?

As pessoas em área de risco precisam ser remanejadas! Porque o governo não faz nada? Cadê o dinheiro? Eu sei onde está! Está nas contas bancárias dos nossos políticos que sabem que as chuvas são normais nesse período; que sabem que o problema virá todo fim/início de ano. Por que não tratam de construir as moradias populares? Por questões políticas: se eles gastam o dinheiro com questões sociais, não sobra pra desviar, se não desviam não se enriquecem, se não se enriquecem não adianta ser político! Ah, é tudo tão simples!

Ah, de se levantar uma bandeira aqui: temos bons políticos,mas esses nunca ganham as eleições. Porque a galerinha do caixa 2 investe muito mais na campanha. Paga por ela. E você e seu vizinho, não pesquisam. Votam no Mané que te deu um bonezinho e reza pra sua casa ficar de pé durante as chuvas.

Temos aqui, então, não uma questão de planejamento urbano, saúde pública ou qualquer outro ramo que queira culpar. Temos aqui uma questão seríssima de consciência política.

Vamos lá, ajuntar e rezar pelos nossos mortos. Torcer pra meteorologia dizer que as chuvas vão cessar. E daqui há dois anos tem eleição, votem nos mesmos governadores que não fizeram nada de 2010 para 2011. E divirtam-se com a programação à la show de horrores que assistimos todo início de janeiro.

Que Deus tenha misericórdia de nós.

Que as chuvas cessem!

Que o povo sofrido tenha alento.

Juiz de Fora, entre 13 e 14 de janeiro de 2011.

Dy Costa.

 

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